
O “dedo em gatilho”, ou tenossinovite estenosante, acontece quando o tendão flexor é bloqueado ao passar pelo sistema de polias, especialmente pela polia A1, na base do dedo.
Ao dobrar e tentar esticar o dedo, o tendão não desliza suavemente, causando o travamento do dedo. O destravamento costuma ser súbito e doloroso, com um “clique” semelhante ao de um gatilho de revólver, o que explica a origem do nome.

Os tendões flexores conectam os músculos do antebraço aos ossos da mão e são responsáveis pela flexão dos dedos.
Nos dedos, esses tendões passam por um túnel osteofibroso, conhecido como polias. A função das polias é manter os tendões próximos aos ossos, otimizando a força de flexão e reduzindo o gasto de energia.
O movimento do dedo ocorre quando o músculo se contrai, fazendo o tendão deslizar e tracionar os ossos, movendo as articulações interfalangeanas. Esse deslizamento é suave e com mínimo atrito, pois os tendões e as polias são envoltos por uma bainha de líquido sinovial, que funciona como um óleo lubrificante.

O dedo em gatilho resulta de uma incompatibilidade entre conteúdo (tendão flexor e sinóvia) e continente (polias), o que impede a excursão suave do tendão e bloqueia o movimento natural do dedo.
Alterações histológicas ocorrem tanto na polia A1 quanto no tendão flexor. A polia A1 fica espessada devido a uma metaplasia, na qual fibroblastos são substituídos por condrócitos. Esse espessamento “aperta” o tendão flexor, dificultando seu deslizamento natural. Como resultado desse “aperto”, a bainha do tendão vai ficando inflamada (tenossinovite), e forma-se um nódulo dentro do tendão, que provoca bloqueio na borda proximal da polia A1, resultando no travamento do dedo em flexão.

Esse processo cria um ciclo vicioso: quanto mais o dedo engatilha, mais os tecidos inflamam, aumentando o inchaço e dificultando ainda mais o deslizamento do tendão flexor.

A verdadeira causa permanece desconhecida. O que se sabe é que algumas condições aumentam o risco de desenvolver dedo em gatilho, como: Mulheres entre 50-59 anos (após à menopausa), doenças metabólicas (diabetes e hipotireoidismo), doenças autoimunes (artrite reumatoide e lúpus) ou doenças de depósito (Gota).
O sintoma inicial é a dor na base dos dedos, localizada na palma da mão, ao nível da polia A1. Essa dor pode persistir por meses sem afetar o movimento do dedo ou evoluir para o bloqueio do dedo.

O bloqueio (ou travamento) doloroso do dedo em flexão é a manifestação clássica, geralmente acompanhada por “cliques”. Pode ser possível palpar o espessamento da polia A1 e um nódulo no tendão flexor.
Quando o dedo começa a engatilhar, os sintomas são piores pela manhã, pois a noite as mãos ficam mais inchadas pela redistribuição dos líquidos que estavam nas pernas durante o dia.
Em fases tardias, pode ser necessária a ajuda da outra mão para destravar o gatilho e estender o dedo, ou o bloqueio do dedo pode se tornar fixo. Nesse estágio, o paciente não consegue mais esticar o dedo, nem mesmo com a ajuda da outra mão.

O diagnóstico é clínico na maior parte das vezes, com base nos sintomas e no exame clínico do paciente. O dedo em gatilho é diagnosticado com o travamento do dedo durante sua movimentação ativa.
Exames complementares, como a ultrassonografia, podem confirmar o diagnóstico ao mostrar inflamação tenossinovial nos tendões flexores e espessamento da polia A1.
Baseada no exame físico do paciente através de manobra provocativa, sendo progressiva de acordo com a gravidade. Costuma ser usada para orientar o tipo de tratamento (Conservador X Cirúrgico).

O tratamento não cirúrgico indicado para casos iniciais (tipos I e II), comumente instituído por pelo menos 3 meses. Consiste no uso de medicações anti-inflamatórias, alongamentos, massagens, crioterapia (gelo), fisioterapia e infiltração com corticoide.
Infiltração com corticoide: efeito anti-inflamatório reduz a tenossinovite, melhorando a incompatibilidade de volume entre tendão e polia A1 para permitir movimento sem travamento ou estalido.

Indicado para estágios avançados (graus III e IV), ou após a falha do tratamento conservador.
Pode ser feito por via percutânea (liberação da polia A1 com agulha, sem incisão) ou via aberta, sendo ambos realizados com anestesia local.
Liberação percutânea costuma ser reservada para pacientes com algum tipo de impedimento a cirurgia aberta, pois esse método tem taxas maiores de persistência do gatilho e lesão iatrogênica de nervo ou tendão.
Cirurgia aberta: a liberação aberta da polia A1 é o padrão, com excelentes resultados e baixíssimas taxas de complicações.


Aplica-se um curativo simples no pós operatório imediato. O paciente é orientado a mover ativamente os dedos, evitando preensão palmar (“pega”) forte por 2 semanas.
Os pontos de são retirados com 10-14 dias.
Após a cicatrização da ferida, o paciente é orientado a fazer massagem sobre a cicatriz e exercícios de alongamento.
Ortopedista Especialista em Cirurgia de Mão e Punho
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